Há 100 anos nasceu Adolfo Correia da Rocha. A sua genialidade associada ao seu amor pela sua terra, pela natureza e pelas Letras imortalizaram para sempre o nome de Miguel Torga. Não escolheu o nome por acaso, mas pelas semelhanças entre o seu espírito e a torga, planta silvestre e rebelde, abundante nas zonas rurais, mais conhecida por urze.
Tirou o curso de Medicina na Faculdade da Universidade de Coimbra e consta que dava várias consultas gratuitas aos mais pobres.
Ao longo da sua obra, transpiram momentos de uma pequena arrogância aliada ao distanciamento dos homens, numa viragem abrupta para a comunhão com o meio natural, não social. Miguel Torga busca incessantemente a pureza, que só pode achar na natureza, mas também a verdade e a perfeição literária, metaforizadas na personagem de Sísifo. É também visível a sua fé atormentada. Ele é o autor que recusa acreditar em Deus, mas não deixa de o fazer, já que O torna presente em vários poemas.
Uma referência incontornável... Aqui fica a minha sentida homenagem, com alguns dos meus poemas favoritos.

TRANSFIGURAÇÃO
"Tens agora
outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram caprichosas,
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...
Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa....
Todas as deusas são mulheres ausentes."

DESFECHO
"Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)
Fosse qual fosse o chão da minha caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...
E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lher perturba a sua solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.
Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amaorgo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia."

SÃO LEONARDO DE GALAFURA
"À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.
Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!"
Miguel Torga