Sexta-feira, 21 de Março de 2008

"Pisa os meus versos, Musa insatisfeita!
Nenhum deles te merece.
São frutos acres que não apetece
Comer.
Falta-lhes génio, o sol que amadurece
O que sabe nascer.

Cospe de tédio e nojo
Em cada imagem que te desfigura.
Nega esta rima impura
Que responde de ouvido.
Denuncia estas sílabas contadas,
Vestígios digitais do evadido
Que deixa atrás de si as impressões marcadas.

E corta-me de vez as asas que me deste.
Mandaste-me voar;
E eu tinha um corpo inteiro a recusar
Esse ímpeto celeste."

 

Miguel Torga



publicado por Dreamfinder às 18:56
Domingo, 12 de Agosto de 2007

Há 100 anos nasceu Adolfo Correia da Rocha. A sua genialidade associada ao seu amor pela sua terra, pela natureza e pelas Letras imortalizaram para sempre o nome de Miguel Torga. Não escolheu o nome por acaso, mas pelas semelhanças entre o seu espírito e a torga, planta silvestre e rebelde, abundante nas zonas rurais, mais conhecida por urze.

Tirou o curso de Medicina na Faculdade da Universidade de Coimbra e consta que dava várias consultas gratuitas aos mais pobres.

Ao longo da sua obra, transpiram momentos de uma pequena arrogância aliada ao distanciamento dos homens, numa viragem abrupta para a comunhão com o meio natural, não social. Miguel Torga busca incessantemente a pureza, que só pode achar na natureza, mas também a verdade e a perfeição literária, metaforizadas na personagem de Sísifo. É também visível a sua fé atormentada. Ele é o autor que recusa acreditar em Deus, mas não deixa de o fazer, já que O torna presente em vários poemas.

Uma referência incontornável... Aqui fica a minha sentida homenagem, com alguns dos meus poemas favoritos.

TRANSFIGURAÇÃO

"Tens agora
outro rosto, outra beleza:
Um rosto que é preciso imaginar,
E uma beleza mais furtiva ainda...
Assim te modelaram caprichosas,
Mãos irreais que tornam irreal
O barro que nos foge da retina.
Barro que em ti passou de luz carnal
A bruma feminina...

Mas nesse novo encanto
Te conjuro
Que permaneças.
Distante e preservada na distância.
Olímpica recusa, disfarçada
De terrena promessa
Feita aos olhos tentados e descrentes.
Nenhum mito regressa....
Todas as deusas são mulheres ausentes."

DESFECHO

"Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da minha caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lher perturba a sua solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amaorgo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia."

SÃO LEONARDO DE GALAFURA

"À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!"

 

Miguel Torga



publicado por Dreamfinder às 13:44
“Um leitor é sempre um estudante do mundo.” Deborah Smith
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